sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Minas ainda sofre com a herança da estiagem em plena estação considerada chuvosa


Luiz Ribeiro/EM/D. A Press

Francisco Sá 
– Em pleno fim de dezembro, quando a maior parte dos mineiros costuma estar contabilizando os prejuízos causados por enchentes, o estado dá demonstrações por todos os lados de que nem sequer conseguiu se recuperar de uma das mais severas secas da história. Embora alguns municípios tenham registrado problemas com tempestades localizadas, a precipitação registrada até agora está longe de ser suficiente para amenizar os problemas da estiagem. Segundo balanço da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec), neste ano foram assinados decretos de emergência em 173 municípios mineiros devido à escassez de chuvas – em 10 casos, depois de novembro, quando começa o período considerado chuvoso. Com o volume pluviométrico abaixo da média histórica, os mananciais não se recuperaram, o nível dos reservatórios que atendem populações urbanas permanece baixo e centenas de comunidades continuam a ser atendidas por caminhões-pipa.

O reservatório da usina hidrelétrica de Três Marias, que, além de gerar energia regula o Rio São Francisco e garante o abastecimento de vários municípios, está com apenas 9,3% da sua capacidade. A recuperação é lenta, mesmo com o volume de saída de água limitado a 121 mil litros por segundo – cerca de um terço do que vem chegando ao lago – como medida para tentar garantir a recuperação da represa.

Com o rigor da estiagem, problemas de abastecimento atingiram praticamente todas as regiões do estado, com diversos municípios sendo obrigados a adotar o racionamento. O quadro foi mais grave no Norte de Minas e no Vale do Jequitinhonha, historicamente castigados pela estiagem. Com as primeiras chuvas, o verde voltou a dominar o cenário nessas regiões, mas centenas de córregos e rios ainda estão secos ou interrompidos. É o fenômeno da “seca verde”.

“Voltou a chover, mas há uma alternância entre sol e chuva. Com isso, a pastagem e a vegetação ficam verdes, mas o volume registrado até agora não foi suficiente para encharcar o solo e recompor o lenço freático, que abastece as nascentes”, explica Reinaldo Nunes de Oliveira, técnico do escritório regional da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-MG) em Montes Claros – maior município do Norte de Minas, com 394 mil habitantes, e o último a decretar situação de emergência devido à seca, no último dia 8. Ele lembra que do começo das chuvas, no fim de outubro, até agora, foram registrados na cidade 324 milímetros de precipitação, a metade do esperado. 

Neste mês, houve decretos de emergência pelo mesmo motivo em São João das Missões (dia 4) e Riachinho (dia 1º). A providência havia sido adotada por outras sete cidades em novembro: Santa Maria do Salto, Pirapora, Gameleira, Juvenília, Francisco Dumont, Jordânia e São João da Ponte. 
Segundo Reinaldo Oliveira, devido à estiagem prolongada deste ano, 730 córregos e rios do Norte de Minas ficaram completamente secos ou tiveram o curso interrompido. O técnico ressalta que, depois da crise da água que atingiu dezenas de municípios em Minas e áreas fora do semiárido, como a própria cidade de São Paulo, a garantia de recursos hídricos para o abastecimento humano terá que ser repensada. “Daqui para frente, o Brasil precisará de um novo olhar para a questão da água. Não poderemos ficar apenas na dependência da chuva. As pessoas terão que aprender a usar racionalmente o recurso”, observa.
Tempestades nos últimos dias causaram prejuízos no Sul de Minas e na Zona da Mata mineira. No Sul, as cidades mais atingidas foram Passos, Machado, Muzambinho e Guaxupé, onde as águas da noite de Natal deixaram ruas encobertas. Na Zona da Mata, em Matias Barbosa, móveis e eletrodomésticos foram arrastados no Bairro Monte Alegre. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê mais pancadas para os próximos dias nos municípios atingidos. 

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